sábado, 29 de agosto de 2015

Tornar-se mãe


Há mais de dois anos não escrevo aqui e, nesse sentido, não escrevo. 
A escrita, para mim, sempre foi de uma ordem mais subjetiva, de inscrever experiências.
Com o advento das redes e da facilidade de acesso e compartilhamento, meus textos saíram de seu local de origem - dos diários, realmente íntimos, de uma leitura intrapessoal, digamos assim, em que a autoria se prevê enquanto destino final - para marcarem um ponto em rede.
Nesses mais de dois anos, muitos acontecimentos.
Conheci e encontrei o cara com quem pretendo compartilhar minha vida até os noventa e poucos. Foi um encontro virtual, novidade para mim (sou dos anos setenta, né, gente :P), de dois pontos em rede. Viajamos juntos pela primeira vez: ele, no frio irlandês e londrino e eu, aqui, no calor da ilha. No boteco da esquina - botequim - aconteceu o encontro real - corpo a corpo, energia, chuvinha de verão e um guarda-chuva do tamanho do mundo. Fechamos o estabelecimento e, desde então, nos estabelecemos em uma parceria única, especial, em sintonia. Dividimos nossos lares: um pouco lá, um pouco cá. Começamos nossas viagens e, estando em outros lugares, estrangeiros, fomos nos conhecendo cada vez mais. O olhar de fora nos remete para dentro e o perder-se faz o encontro. 
Em quase um ano, optamos por um único local que pudesse agregar nosso corpos e almas, simultaneamente. Foi simples. Nenhuma crise de pânico, nada de ansiedade. Parecia ser o que era para ser (e não é assim que as coisas são?). Nossas vidas de encaixaram de forma tão fluida, tranquila e comecei a entender o que é o amor, também racionalmente. Viajamos mais e mais. Tanto, que nem lembro mais datas e cronologias, Se bem que resolvi deixar essa concepção de lado - ao lidar com experiências/acontecimentos for do hábito - desde que escrevi minha tese (ou ainda durante a dissertação ) - e abandonei o tempo amarrado ao pulso, também conhecido como relógio.
Um ano depois, agora, 2015, optamos por selar nosso compromisso em termos de legalidade e direitos. Casamos no civil em um dia que nos possibilitou engatar o período de licença gala a um feriadão desse e, ainda, a 10 dias de férias. Afinal, o tempo cronológico precisa ser usado para bons fins, certo? Reservamos os outros 20 dias de férias para setembro (mês que vem). 
Antes disso, ou simultaneamente, estávamos pensando que era hora de ampliar ainda mais nosso laço e produzir uma mistura, um ser que fosse ambos. Antes de casar e da viagem à Buenos Aires, no carnaval, descobrimos a gravidez. Na pia do banheiro, quadrada, branca, asséptica, olhando para aquele potinho com duas listras: há um bebê aí dentro, foi o que o Ricardo disse. 
Desde então, a confirmação. Eu já imaginava, em função de outros indicativos, mas, né, nada é muito certo quando se trata de corpo e mente: eles se enganam, às vezes; entram em conflito. Não foi o caso: exame de sangue é mais preciso. Não foi surpresa, na medida em que fez parte dos planos. Foi e está sendo esperado. Mas mesmo tendo sido esperado/desejado, a surpresa se instalou, naquele instante. Isso é real, mesmo sendo um real imaginado, pressuposto, antecipado (afinal, o presente é o que há e do futuro, só imaginado o que será).
Foi um abraço tenro, uma comunhão. Seríamos/seremos pais. 
O ímpeto da escrita veio de uma grande amiga, Mayra, que acaba de compartilhar sua experiência de gravidez e nascimento: de ocupar o lugar entre gestante e mãe, entre o conhecido e o novo, entre o ser pressuposto e o vir a ser. 
Tornar-se mãe é esse processo mesmo. Modificação no corpo e na alma, sentir-se invadida por uma energia e movimentos internos que são e não são meus, outro dentro de mim. Sensação louca e apaixonante, desde já: descontrole, posse e não posse, deixar ser e deixar vir, permitir o desenvolvimento da vida. 
Tornar-se mãe é tornar-se fluxo, escapar das convenções e estipular medidas, conforme as notas musicais. É tomar decisões não só para si, mas com o intuito de guiar/mediar outro ser, futuro sujeito atravessado pelos seus próprios desejos. 
Tornar-se mãe é ouvir dicas, sugestões e "ordens" (sim, tem gente que valida sua experiência para o geral das mulheres, equivalendo uma por uma, e, assim, ordena) de todos os tipos e espécies: alguns discursos mais positivos, outros negativos, em diversos graus de intensidade. 
Tornar-se mãe, no entanto, é uma experiência singular, mesmo com tantas repetições (afinal, as mães existem desde muito tempo), assim como a vida que cada um vive. Há teses, demarcações, generalizações, no sentido de padronizar e referenciar as mães, mas, não esqueçamos: há, também, diferenciações, desvios, momentos que marcam as singularidades. Ninguém é igual a ninguém. 
O estado de gestar/gerar evidencia ainda mais essa questão de ser.
Tales está para chegar, ou melhor, sair, em breve. Vai estar nesse mundão pela primeira vez e sentir a experiência da vida de fora, tão potente. 
Estaremos aqui. 



terça-feira, 26 de março de 2013

A primeira reunião

Depois de uma passada por um oficina literária, resolvi ir em busca de textos antigos... lembrei-me de um conto, o do sábio velho chinês.

A primeira reunião


Ana é o fato gerador da empresa fantasma, possível cooperativa, desde que todos os clientes associem-se aos furos da lei. Será um empreendimento possível? Segundo Guilérme, filósofo renomado que sofre do distúrbio da fala compulsiva em conjunção com a doença que mais afeta e se dissemina em ambientes virtuais educativos, a EP, este tipo de cooperativa é sim, possível. Entre os grupos oligárquicos e onipotentes da cafeicultura brasileira, a associação aos grãos de ouro da nossa terra, é um empreendimento mais do que garantido. Só não se engaja quem não pode, porque, nos dias globalizados de hoje, todo mundo quer uma boca dessas. É um bom bico. No entanto, a tarefa não é tão fácil assim. Mas, também de acordo com a filosofia milenar, o fácil não compensa: para ser valorizada, a ação requer uma certa dificuldade. Quanto mais difícil e complexa for, terá mais valor. Já nos dizia Freud, figura recorrente no decorrer da primeira reunião, a civilização é um processo resultante do mal-estar. Veja bem a escrita, não se trata do mau e do bom, simples pensamento dialético ultrapassado no tempo do múltiplo, mas da questão perturbadora da coletividade humana. As dificuldades da convivência podem resultar em equívocos inconscientes da linguagem, caso de uma das pérolas do vestibular: seromano. Este tipo de ato falho requer um estudo mais detalhado que não cabe no espaço desse conto, mas que vale a pena ser redito e transmitido para os próximos omanos que virão, além dos que aqui já estão. Lá estavam omanos de todos os tipos, como era de se esperar porque até hoje não foram encontrados dois iguais e espero que os cientistas genéticos ainda não tenham criado clones perfeitos, pois convenhamos, existem seres muito estranhos na face da terra. Parte do vilarejo dos sete anões estava presente naquele entardecer. Entre saídas abruptas e movimentos uniformemente irregulares, mas sempre velozes, os três anões sentiram-se em casa, nos melhores cômodos do castelo kafkiano. Através de seus discursos mirabolantes e um pouco paranóides, os pequenos seres, que não eram agricultores e desconheciam o prefeito local, fascinavam seus interlocutores. As brechas das leis se abriam e até mesmo o show da educação foi proposto, juntamente com o fundo social. No entanto, eles não esperavam a presença marcante do grande tio tadeu-son, advindo de uma reverente linhagem da sabedoria chinesa. As aparências enganam, dito popular que mostra sua eficácia neste caso, pois o mestre tadeu-son não parecia nada chinês. Nem olhos puxados tinha. No entanto, tudo é possível com as cirurgias plásticas tão requeridas atualmente e muito valorizadas. No caso do mestre, o pedido foi de contra-fluxo, ao invés de esticar a face e os olhos nela contidos, o processo foi reverso. Deixar de ser chinês e, assim, logicamente, disfarçar suas origens sábias, tadeu-son, utilizando dessa mesma sabedoria, tornou-se homem branco padrão. Nada a ser questionado, os anões da lei aceitaram-no tal qual, tão normal. As falas eloquentes e humorísticas do mestre desviaram os olhos e ouvidos hipnotizados dos omanos presentes, fazendo com que o castelo caísse e que um dos pequenos seres desaparecesse por mais tempo do que o normal, causando uma desordem mais do que natural no funcionamento do sistema kafkiano. Depois de 67 cervejas e oito horas de carne, a reunião deu-se por encerrada, encerrando também seu fato gerador, mas deixando em aberto, nos corredores da lei, uma segunda chance. 

12/02/2007

sábado, 2 de março de 2013

Um (não) manual para mentes férteis sem agrotóxicos: a (não) maestria


Inspiração: inspirar uma ação.
Estava lá, nadando - ação do nado e, em momentos de lucidez presente, do nada - e as ideias brotando, os frases se formando. Muita ação - present continuous.
Pensando e escrevendo - mentalmente - um texto: uma organização de ideias.
Irrupção do título.
Um manual, correto - exposição do raciócínio lógico, do passo a passo, direcionado à ação. Sim, faço isso da vida. O manual tem o seu valor, na medida em que otimiza o tempo. Creio ser esta a sua função: funcionar a favor do tempo, que parece nos ser cada vez mais escorregadio.
No entanto, sem agrotóxicos, sem veneno: o não manual.
Fica implícita, nisso, a questão da singularidade, da impossibilidade de criar um roteiro de vida geral - uníssono - para todos aqueles considerados dentro de um grupo alvo. Esta proposta equivaleria a envenenar os sujeitos, com o intuito de adestrá-los, "emparedá-los".
A urgência da ação foi concebida também pela maestria, pela (não) função do mestre. Para quem ainda não viu, vale ver: filme ilustrativo dos efeitos da dependência.
E quando não é a figura do mestre, são os livros de auto-ajuda, os programas de televisão, os manuais seguidos à risca (e a sequência interminável de objetos postos na mesma linha de substituição) que nos propõem como nossas vidas devem ser vividas.
Mas e por que, mesmo, devemos receber essas intruções? A felicidade/bem-estar nos é externo? Basta comprar?



Conversava com um amigo sobre o Budismo, sobre a figura do "mestre" Buda e, mais particularmente, sobre a experiência da vida.
Meditação: meditar sobre a ação. Princípio fundamental que pressupõe um não-movimento de ideias, esvaziar a mente, escapar dos pensamentos. Pressupõe o simples (e difícil) ato da presença.
Pressupõe a não consciência do futuro e a não consciência do passado: simplesmente a consciência presente.
Mas para que isso, mesmo?
Para diminuir o ritmo, quem sabe. Para atingir um estado corpóreo-mental de paz, plenitude, descanso. Para ser.
Esssa prática requer uma repetição: uma ação repetida. Requer um manual, uma disciplina, um passo a passo, até que se realize por si só.
E eis onde queria chegar, lá no início - pois não estou aqui meditando, portanto, projeto o futuro e relembro o passado: estamos esperando que a felicidade nos venha de fora, por meio de laços de dependência, que, geralmente, nos trazem o contrário - queixas e doenças?
Estamos esperando que façam por nós o que é (ou deveria ser) de nossa livre vontade? As ações sempre serão nossas, assim como suas consequências.
Os manuais nos são válidos para planejamentos, para colocar em jogo desejos, futuros possíveis, na medida em que delimitam as possibilidades.
A fertilidade, no entanto, não é alimentada por agrotóxicos - por um "sair de cena" enquanto permanência no palco. Requer ação. Inspiração. Meditação. Improvisação.
Manuais, guias, bíblias, fimes, discursos, textos científicos, filosóficos, amorosos, e assim por diante, pressupõem.
A vida, acontece.
Mais ausente ou mais presente.






domingo, 28 de outubro de 2012

Entre o céu e a terra

Hoje foi um dia tranquilo. Um dia bom. Leviano, sem altos e baixos. Um dia qualquer. Praticamente desacontecido. Um daqueles que não ficará na memória. Que passará. Que está passando. Já é noite. Há uma brisa lá fora. Chegou o verão. Passei o dia andando de pés descalços. Senti o chão frio em cada passada. O bem-estar do corpo em seu movimento natural. Lembrei-me da infância. Da plenitude e do alargamento da vida. Chorei pelo que não há mais. Pelo que um dia foi. O tempo me assaltou, novamente. De leve, feito brisa. Cheirando a ameixa amarela. Voltou tudo, com força. Enxurrada de lembranças. De dias apreendidos. Do tempo que permanece nostalgicamente. Penso que é por isso que sempre escrevi. Agarrar o que esvai e que, pela letra, permanece. Entre o céu e a terra.   
 
 

domingo, 20 de maio de 2012

Rango pronto, texto escrito, é só abocanhar


E se eu colocar mais queijo do que pão? Seria queijo-pão?

Começou assim minha viagem culinária e o texto. Portanto, ele já está praticamente pronto, basta apenas colocá-lo no papel, ou na tela, enfim.

Fichinha.

Vejam que o mais importante nisso tudo não é o tema a ser desenrolado, mas o desejo da escrita, aquela coisa que vem do nada e toma posse. (Meu pai e eu estávamos impressionados, dia desses, com o Stephen King: o cara é, literalmente, uma máquina de escrita e não escreve qualquer coisa. Ah, e ele é mais de um).

Os parêntesis vão, sim, atravessar a narrativa. São inevitáveis ao meu modo, digamos assim, de pensamento associativo. Sim, pequenas redes vão se formando. Por isso, a dificuldade em escrever algo que tenha início, meio e fim. Sempre me dei mal com essas coisas lineares (redações na escola... argh!), em todos os sentidos.

Por isso, também, meus textos não se prolongam... as ideias vão se misturando umas às outras e... o que mesmo queria dizer? Pois é, o que podemos chamar de “essência” do texto dura, aproximadamente, 3 linhas.

Mas vamos lá... quem sabe, com a prática e tal.

Pois bem, a experiência culinária: estava eu lá, logo ali, socando a massa – ou seja lá o que for aquilo (os travessões também são constantes) - e, do queijo-pão, pensei nos relacionamentos. Nas medidas. Nos prolongamentos. No excesso de um e na falta do outro. Nos cortes. Nos tamanhos.

Como, mesmo, lidar com tudo isso?

Aí, de novo, o pensamento lógico, simples, sem lero-lero: o lidar lida por si só, assim como o texto se faz, antes mesmo de um aviso.

Agora, rango pronto, texto escrito, é só abocanhar.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Uma constante: em todo o fim sempre há o início

um dia eu soube que escreveria sobre isso...
premonição?
antecipação?
desejo?
não sei.
só sei que um dia escreveria sobre isso
o tempo que passa e as atualizações sem registro
um blog que nasceu em plena potência e que, agora, míngua
existe quase sem existir
paira, quase sem vida, meio místico, meio pó
no mais, fica o registro de que esse tempo da pausa parece necessário à retomada
em breve.

terça-feira, 8 de março de 2011

SeCine: uma experiência de algum tempo


A sensação de tempo sofre uma distorção similar à experienciada em Trainspotting, outro filme genial do inglês Danny Boyle. A angústia e o desespero também se presentificam. Por quantas horas teria que suportar aquilo? pensei. Será que as 127 horas pressupostas na narrativa sejam equivalentes a 127 minutos de presença-distância do eu-espectador? Algum trocadilho? Alguma teoria sobre um novo tempo de experiência daquele que assiste? Mas estes perguntas vieram depois, é claro: naquele a posteriori da compreensão, da absorção, da modificação, da celebração.
As 127 horas vivenciadas em um quase monólogo trazem à tona uma noção muito mais ampla de tempo: para além do chronos, a influência constante da memória nas nossas percepções - a concepção de duração do filósofo Bergson - e, portanto, na construção de nosso presente, assim como as alucinações - fragmentos desvinculados de tempo - afloradas pela falta das nossas necessidades básicas: água, alimento, calor.... E, é claro, o desejo por um tempo futuro, devir (vide outro filósofo aue trata da vida, Deleuze), a busca dos nossos sonhos, produzido, essencialmente, pelo nosso instinto de sobrevivência. A pulsão de vida quase sempre é mais eficiente do que a de morte. Freud. 
Neste contexto, as 127 horas se ampliam em passado, presente e futuro, tal qual um elástico; neste caso, à corda que amarra e desliza o corpo nas escaladas dos sonhos, das buscas. Na viagens da vida, algumas quedas são inevitáveis. Nos deparamos com percursos mais rochosos, é verdade, mas também com momentos tão singulares, tão simples - presentes.
Raramente nos damos conta da nossa existência frágil e efêmera e de como a vida passa, enquanto fazemos planos (adaptação dos Beatles, para pingar algumas notas na tela). Aquele ideia recorrente de que vemos a vida passar pela janela de nossos pequenos cubículos existenciais. 
A influência do cinema - das artes, em geral - é tão significativa que, ao término das 127 horas ficcionais, saí para caminhar, correr, me deparar com a abertura do céu. Choveu durante todo o percurso. Tomei o melhor banho de chuva da minha vida. De novo.